20.2.06

Novidades de Michael Blake

Michael Blake é um dos músicos que tem integrado a banda do contrabaixista Ben Allison e foi nessa qualidade que pude apreciar os seus talentos num concerto realizado, aqui há uns meses, no auditório municipal de Oeiras. Nasceu em Montreal, no Canadá, passou pela Califórnia e por Vancouver, mas acabou por fixar-se em Nova Iorque. Estes saltos geográficos tiveram alguma equivalência com as mudanças que se verificaram na sua aprendizagem da música. Exerimentou diferentes instrumentos, como o violino e o piano, antes de se voltar para os sopros. Chegado aqui, começou pelo clarinete e, posteriormente, apostou na descoberta do saxofone.
A sua discografia a solo é ainda curta, com cinco discos editados, mas assinalável. E o seu álbum mais recente, Blake Tartare, constitui mais uma óptima peça numa carreira que já é muito mais do que uma promessa com boas perspectivas de confirmação. Soren Kjaergaard (fender rhodes e piano), Jonas Westergaard (contrabaixo) e Kresten Osgood (bateria) são os seus companheiros nesta gravação, além de Teddy Kimpel que surge em três das nove faixas a tocar guitarra. Primeiro facto a assinalar é que apenas dois temas não são da autoria de Blake: Languidity tem a assinatura de Sun Ra e Meditation é uma criação de Charles Mingus. Como Blake é um compositor largamente inspirado, esta situação acaba por ser um dos trunfos mais fortes do disco.
A música de Blake Tartare passeia de forma descontraida entre a melancolia de A Hole is to Dig e tempos mais acelerados que chegam a atravessar os terrenos do funky, como sucede em Messy Business. Um dos pontos altos acontece em Feast, uma bela peça de jazz-rock, a recordar os tempos dourados dos Weather Report. Um belo álbum como este precisava de um encerramento à altura, o que sucede com o meditativo Neil's Toy Train. É um fim de festa simples e hipnotizante, a acrescentar às duas excelentes versões que Michael Blake e a sua banda interpretam neste CD.

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16.2.06

Duas preciosidades

Isto hoje não está fácil. Para começar, as capas dos discos decidiram dançar pelo meio do post, desobedecendo às minhas ordens. Acertar isto consumiu algum trabalho e muita paciência. Quando supunha que, finalmente, tinha conseguido colocar as imagens onde as queria, comecei a escrever. Mas foi nessa altura que tudo ficou novamente fora dos lugares previstos. Como este blogue é sobre música e pouco mais, optei, então, por me marimbar no "pouco mais", correndo o risco de ser gozado na blogosfera como uma espécie de info-excluido, mas à custa de me concentrar no essencial e esperançado de que, uma vez publicado este post, tudo venha a revelar-se como foi planeado.
E o essencial neste texto é falar de dois discos soberbos de Jessica Williams, pianista que descobri apenas há coisa de quatro anos mas que, desde o momento em que escutei as primeiras notas de um CD seu intitulado This Side Up, me deixou completamente rendido. Williams tem já uma longa discografia, de que conheço apenas uma pequena parte, mas a amostra revela uma enorme solidez e regularidade em termos qualitativos em tudo o que foi gravando desde meados dos anos 70 até agora. Uma surtida até à página que lhe é dedicada no All Music Guide permite verificar que o que não falta são elogios à sua carreira, discreta mas altamente respeitada.
Foi em sessões ao vivo, em São Francisco, que Jessica, o contrabaixista Ray Drumond e o baterista Victor Lewis empreenderam a tarefa de registar os dois álbuns em causa, Live at Yoshi's, volumes um e dois. Do trio, pode dizer-se que é invulgarmente coeso, o que dá uma grande ajuda. Mas é no virtuosismo e na apuradíssima carga emotiva com que a pianista recria velhos standards e temas originais que estão os grandes segredos para o facto de estes dois CD deixarem quem os escuta completamente amarrado à música. Queria evitar destacar faixas, porque tudo é de alto nível nestas duas gravações. Fica aqui registado, apenas, que a versão de Flamenco Sketches, de Miles Davis, que serve de arranque ao segundo episódio das aventuras irresistíveis de Jessica Wiliams no Yoshi's, é um bom exemplo para se ficar a saber que estas duas preciosidades não podem, nem devem, ser ignoradas.

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15.2.06

O último fôlego de Muddy Waters

O primeiro aspecto a salientar a propósito deste CD é que o baterista é um básico. Não chega a atrapalhar-se, nem a atrapalhar os outros músicos, mas parece ter aprendido a tocar cinco minutos antes de as sessões de gravação terem começado. Se me pedissem, numa "prova cega", para adivinhar quem estava a tocar, eu até diria que se tratava de Charlie Watts, dos Rolling Stones, instrumentista com muitos apreciadores mas que a mim nunca conseguiu dissipar algumas dúvidas. Em segundo lugar, deve assinalar-se que o instrumento percutido por Wille "Big Eyes" Smith soa por vezes a uma colecção de caixas de sapatos, ou de baldes de Skip, daquelas que quando eu era pequeno montava para fingir que tinha uma bateria a sério.
Dito isto, deve acrescentar-se, em abono da verdade, que I'm Ready é um belíssimo álbum de blues, ou não se tratasse de um disco assinado por um dos grandes mestres do género, o inimitável Muddy Waters. Faz parte da derradeira parcela da sua discografia e foi registado cinco anos antes da sua morte, ocorrida em 1983, na fase em que teve por parceiro, na banda e na produção, o guitarrista Johnny Winter. Estamos, assim, perante um dos últimos fôlegos de Waters, por altura da sua participação no concerto de despedida dos The Band, numa inesquecível interpretação do clássico Mannish Boy.
Feita a ressalva relativa ao baterista, tudo o resto corre bem em I'm Ready. Sem exibições desnecessárias de virtuosismo, as guitarras apresentam-se sólidas e as hamónicas revelam-se um tempero de primeira qualidade. Muddy Waters estava em grande forma, rodeado de alguns antigos companheiros dos tempos dourados dos blues de Chicago e cantando com a entrega que se exige a um genuino bluesman. Como acabei de comprar a versão remasterizada, com direito a três temas extra, gravados na altura mas excluidos do alinhamento do LP original, devo dizer que I'm Ready tem agora 12 bons argumentos para que não se deixe escapar a oportunidade de o reescutar.

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5.2.06

Vitamina Patton

Há instrumentos que ficam ligados à banda sonora de uma época. E quando se pensa nos anos 60, é inevitável pensar no orgão Hammond B-3. Sobre as suas teclas, diversos magos alargaram o leque de timbres dos blues e do soul-jazz, criando uma música excitante, capaz de fazer saltar da cadeira o mais imperturbável dos apreciadores. Jimmy Smith ocupa um lugar de destaque entre o grupo de organistas que, com os seus solos e o seu swing, ajudaram a incendiar a década. Mas há outros, como Big John Patton, por exemplo.
Este músico, falecido há cerca de quatro anos, assinou alguns excelentes trabalhos mas, após a era dourada do Hammond, a sua discografia regista uma interrupção. Esteve sem editar novo material entre 1969 e o início dos anos 80, quando o instrumento foi objecto de uma oportuna reabilitação e Big John Patton reemergiu da obscuridade. Apesar deste regresso, é ainda em meados dos anos 60 que se podem encontrar os dois discos mais incontornáveis da sua carreira: Let 'Em Roll e Got a Good Thing Goin'.
Deixando este último para uma futura ocasião, Let 'Em Roll é uma estimulante injecção de energia e bem-estar em quem o escute, como um sumo de laranja tomado logo pela manhã. Patton transmite uma alegria imensa às teclas do Hammond ao longo das sucessivas faixas, secundado nesse espírito positivo por Grant Green (guitarra) e Bobby Hutcherson (vibrafone). No todo, trata-se de uma daquelas gravações que enchem o espírito e obrigam o corpo a reagir. Uma autêntica vitamina.

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