27.9.04

Quatro mãos geniais

Dois discos gravados ao vivo acabam de ver a luz do dia e ambos trazem o carimbo de qualidade de músicos de excepção que, embora pertencendo a diferentes gerações, estão entre o melhor que há para ouvir hoje em dia em matéria de piano. Comecemos por Keith Jarrett. O pianista regressa na companhia de Gary Peacock (contrabaixo) e de Jack DeJonhette (bateria), parceiros com quem toca já há mais de 21 anos.
O que se pode esperar de uma gravação protagonizada por um trio que é um caso raro de longevidade no mundo do jazz? Simplesmente aquilo a que Jarrett e os seus companheiros nos habituraram ao longo de uma produção discográfica tão extensa como rica. Isto é, a interpretação de "standards" do cancioneiro norte-americano com a mestria e a largueza de horizontes que tornam este trio mágico e o seu líder numa entidade absolutamente inconfundível. Desta vez, com base num concerto registado em Munique em Julho de 2001, a ECM proporciona a oportunidade de escutar momentos de êxtase espontâneo construídos a partir de temas como "I Can't Believe That You're In Love With Me", "You've Changed" e "Five Brothers".
Mas nem só de velhos clássicos, profundamente revistos e melhorados, vive a gravação. O tema "The Out-of-Towners", que fornece o título ao álbum, é mais uma daquelas faixas improvisadas em palco que integram o vasto património da carreira do trio. O disco é rematado com uma bela versão de "It's All in The Game", encerrando com chave de ouro mais um CD indispensável destes três músicos a quem a inevitável passagem do tempo não retira qualquer vivacidade.
Bastante mais jovem, mas não menos incontornável pela obra que já foi capaz de produzir, é Brad Mehldau. "Live in Tokyo" foi gravado em Fevereiro de 2003 numa prestação solitária do pianista naquela cidade japonesa. Inclui também alguns "standards", como "Someone To Watch Over Me", "Monk's Dream" e "How Long Has This Been Going On". Mas, iguamente, dois temas de Nick Drake, "Things Behind The Sun" e "River Man".
A exuberância de Keith Jarrett dá aqui lugar à poesia que fez escola através de Bill Evans. O momento mais abrasador do disco está, no entanto, nos perto de vinte minutos em que Mehldau mergulha na desconstrução e sucessiva reconstrução de "Paranoid Android", um original dos Radiohead. Só por si, esta faixa assegura as cinco estrelas que o CD bem merece.
Se as editoras de Jarrett e de Mehldau queriam fazer da "rentrée" deste ano uma ocasião especial, conseguiram-no plenamente. Os dois CD garantem a felicidade, trazida por quatro mãos geniais quando se trata de percutir as teclas e encher os ouvidos e a alma de quem escuta.

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23.9.04

"Selling England..." em vinil

Pergunta Fernando Frazão, a propósito do "post" "A música do acaso", se existe alguma reedição do álbum "Selling England By The Pound", dos Genesis. Em CD, seguramente, com versão remasterizada que, há uns anos e em boa hora, veio substituir os primeiros e muito pobrezinhos lançamentos dos velhos discos da banda em versão "compacta". Quanto ao vinil, na Amazon está disponível a informação de que esta versão foi descontinuada mas pode ser encontrada em segunda mão. Aqui fica o endereço da página daquela loja dedicada ao LP em causa. Pode ser que seja possível encontrar o álbum noutros "sites". É uma questão de investigação...

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21.9.04

A música do acaso

Foi num sábado à tarde, na loja da Valentim de Carvalho da Rua Nova do Almada, em Lisboa, que pela primeira vez tomei contacto com o álbum “Selling England By The Pound”. Os Genesis de Peter Gabriel eram ainda, em 1973, uma entidade praticamente desconhecida para mim. Tinha escutado anteriormente o tema “I Know What I Like”, editado em “single”, mas apesar de esta canção me ter agradado o meu interesse pela banda esmoreceu perante outras prioridades.
Naquele dia, porém, algo ia começar a mudar para meu bem. Quando me preparava para entrar naquele saudoso espaço dei de caras com um amigo que, por influência do irmão mais velho, já era um fanático dos Genesis. Estava exultante porque tinha acabado de adquirir uma cópia do “Selling England By The Pound” e com pressa de ir para casa desfrutar a novidade. Entre exclamações excitadas de que se tratava do “melhor grupo de sempre” e de que aquele disco era “uma obra-prima”, lá fiquei com a curiosidade aguçada para conhecer tamanho feito.
Habituado a paladares mais fáceis de deglutir, confesso que a princípio estranhei a música deste álbum, com as suas mudanças de ritmo e as longas passagens instrumentais. Mas, como dizia Fernando Pessoa a propósito do sabor da Coca-Cola, também os sons dos Genesis que de início estranhei acabaram por se entranhar. E de que maneira. Decidi comprar o disco, depois de o ter escutado quase na íntegra por duas vezes perante a impaciência do empregado que me atendeu.
Também eu fiquei ansioso por chegar a casa e mergulhar neste admirável mundo novo que se oferecia à descoberta. E foi a partir desse dia que nunca mais me cansei de ouvir “Selling England By The Pound”. Os Genesis estavam em plena maturidade e tinham atingido uma elevada consistência como compositores e instrumentistas. Desde o arranque do álbum com a voz solitária de Gabriel a introduzir “Dancing With the Moonlit Knight” até aos sons finais de “Aisle of Plenty”, o disco era um desfiar de originalidade e competência. Havia soberbos solos de guitarra eléctrica de Steve Hackett na faixa de abertura e no remate de “The Battle of Epping Forest” e dedilhados hipnotizantes nas guitarras acústicas como sucedia em “After the Ordeal”. Tony Banks expunha as suas potencialidades nos teclados em “Firth of Fifth” e “The Cinema Show”. E Peter Gabriel, com a sua voz versátil dando vida à fantasia das letras, enchia todo o álbum com uma atmosfera de encanto.
Após este inesquecível pontapé de saída, fui ao encontro dos discos anteriores. Com tempo e algum esforço, “Trespass” e “Foxtrot” lá acabaram por ir fazer companhia a “Selling England By The Pound” na colecção de vinil, enquanto “Nursery Crime”, pedido de empréstimo, saltava para uma cassete de 90 minutos que, no lado B, tinha o “Genesis Live”. E eis como o acaso me apressou a entrada no maravilhoso universo dos Genesis de Peter Gabriel.

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20.9.04

Bill Wyman e "Live With Me"

Escreve dermot num comentário que agradecemos ao post "Os Stones e os detalhes": "Apesar de pouco audível na maioria das canções, o que se reflectia também na sua presença em palco, Bill Wyman nunca deixou de ser uma peça fundamental na banda; basta escutarmos Bitch ou Live With Me." Deve esclarecer-se que na versão de estúdio incluida no álbum "Let it Bleed", o baixo na canção "Live With Me" é tocado por Keith Richards e não pelo que, na época, era o baixista da banda, Bill Wyman. Pode ser apenas coincidência o facto de, neste tema e nesta versão especificamente, o instrumento em causa ter um protagonismo inusual nos temas dos Stones.

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Os Stones e os detalhes

Há detalhes nas antigas gravações dos Rolling Stones que sempre me causaram perplexidade. Têm a ver, em parte, com a produção e a qualidade do som que, em comparação com registos contemporâneos, se mostra deficiente e não raras vezes aparenta ter sido resultado de algum amadorismo. Bastará pegar nos primeiros discos dos Beatles, por exemplo “A Hard Day’s Night”, e confrontá-los com edições dos Stones lançadas por alturas de 1964, quando a banda de Jagger e Richards colocou no mercado o seu primeiro 33 rotações, para se perceber que entre a qualidade sonora dos dois grupos vai uma distância imensa.
É evidente que, por volta de meados dos anos 60, os “fab four” estavam em plena “beatlemania” e que a respectiva editora e o produtor George Martin apostavam forte na exploração dos talentos dos quatro jovens de Liverpool. E é certo também que, enquanto o Mundo enlouquecia com John, Paul, George e Ringo, os Stones davam ainda os primeiros passos nos meandros da indústria discográfica, sendo até apresentados no subtítulo da sua primeira gravação de longa duração como os “novos fabricantes ingleses de êxitos”, o que pode justificar os meios mais modestos que, presumivelmente, eram colocados à sua disposição.
Mas, para além destes aspectos, há canções que revelam menor cuidado e um trabalho comparativamente mais apressado e menos atento no que se refere à sua finalização. O respeito pelos tempos é um desses pormenores. Escute-se com atenção o tema “Time is on my Side” e perceber-se-á que a percussão da pandeireta que ajuda a acentuar o ritmo não coincide, frequentemente, com o som da baqueta de Charlie Watts a bater na tarola. Em “The Last Time”, a derradeira entrada do “riff” de guitarra é feita com algum atraso em relação ao compasso da canção. E, entre outros exemplos possíveis, em “We Love You” ressalta o sentimento de que a bateria anda o tempo todo a correr atrás dos restantes instrumentos sem que nunca os consiga apanhar.
Há situações deste género que se repetem em trabalhos mais tardios. Recordo-me que durante anos tive a sensação de que Watts chegava demasiado tarde ao remate de um “break” perto do final de “Tumbling Dice”, tema que foi o “single” de promoção de “Exile on Main Street”. Mesmo este álbum, que para mim e muitos outros apreciadores dos Rolling Stones é um dos seus melhores, não disfarça o facto de ter resultado de um conjunto de sessões caseiras em que o anfitrião foi Keith Richards. O som é pouco trabalhado e isso é notório, nomeadamente, na debilidade rítmica que transparece claramente em “Happy”.
Estou convencido que um dos problemas decorre, em diversas situações, de alguma falta de entendimento e coordenação entre o antigo viola-baixo, Bill Wyman, e o seu companheiro da secção rítmica, Charlie Watts. Em muitas das gravações dos Stones, o baixo tem uma presença demasiado discreta e mesmo um ouvido atento tem dificuldade em descortinar o seu trabalho, assim como o som do bombo da bateria. Em resultado, sobra por vezes um vazio que retira força a algumas das canções da mítica banda britânica. O registo ao vivo “Love You Live” é um exemplo acabado desta situação.
A propósito de um dos mais recentes álbuns dos Rolling Stones – não me lembro exactamente de qual mas julgo que terá sido o “Bridges to Babylon” – um crítico assinalou que, pela primeira vez desde há muitos anos, se conseguia escutar a viola-baixo num disco da banda. Fiquei satisfeito por saber que não sou o único que notou o pormenor. E suspeito que, tal como li há anos num livro dedicado à história dos Stones, será verdade que o factor decisivo que, nos idos de 60, levou à contratação de Bill Wyman terá sido o facto de este ser proprietário de um bom amplificador, o tipo de material que escasseava nos anos de arranque da que agora é considerada a “maior banda de rock’n’roll do Mundo”.

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Era uma vez a Valentim...

As lojas da Valentim de Carvalho foram referências para sucessivas gerações de melómanos. Lembro-me do espaço na Rua Nova do Almada, com os seus postos de audição que permitiam aos clientes escutarem as novidades confortavelmente sentados numa banqueta, mas que haveria de ser consumido pelas chamas durante o incêndio do Chiado, em 1988.
Recordo-me, igualmente, da loja na Avenida de Roma, também em Lisboa, onde o David Ferreira iniciou a sua carreira na empresa de que a família era accionista. E da que estava instalada no Centro Comercial de Alvalade, que possibilitava a aquisição de discos a horas em que a restante rede já tinha encerrado as suas actividades diárias, com a vantagem, ainda, de estar aberta aos domingos.
Todos estes locais fazem parte das memórias de quem gostava de música e se dedicava a coleccionar discos ou, simplesmente, a manter-se a par das novidades. Era um dos bons prazeres da vida conseguir juntar o dinheiro suficiente para ir visitar uma dessas lojas e sair de lá com um 33 rotações, ou um mero "single", embrulhado num daqueles sacos de papel que tinham o "logo" da Valentim de Carvalho, Comércio e Indústria, S.A.R.L., impresso a preto e branco.
Cada loja tinha a sua frequência específica. Na Rua Nova do Almada, a secção de música "clássica" atraía uma clientela mais crescida que, para chegar ao seu destino, tinha de atravessar a multidão adolescente que, sobretudo aos sábados, enchia a sala de entrada em busca das novas edições dos seus ídolos.
Na Avenida de Roma, a tendência era para agradar a um público-alvo mais jovem. E talvez por isso, mas sobretudo para ganhar espaço para os escaparates onde eram colocados os LP, este local tenha sido objecto de obras pouco tempo depois de ter aberto as suas portas, que resultaram na supressão dos bancos idênticos aos do Chiado, passando as audições a ser feitas de pé, como convém a quem não tem problemas de circulação.
Os tempos mudaram e a Valentim de Carvalho não resistiu aos novos hábitos e tendências. Um lento mas irreversível processo de apagamento perante a concorrência transformou a sua rede de lojas num conjunto de locais pouco interessantes para quem pretenda mais do que um catálogo escasso e praticamente resumido aos títulos mais óbvios. A troca de um espaço no Rossio por uma mega-loja contígua à da Fnac que está sedeada nos antigos Armazéns do Chiado foi uma espécie de canto do cisne.
É uma pena que assim tenha sucedido. Não só pelas boas memórias que a marca Valentim de Carvalho suscita, mas também porque a concorrência beneficiava os apreciadores de música. Quem frequente a Fnac do Chiado apercebe-se que, desde o encerramento da loja vizinha, a escolha foi reduzida. Por exemplo, os espaços dedicados ao jazz e à erudita, que anteriormente estavam em salas separadas, ocupam actualmente apenas um desses compartimentos. Como é evidente, a quantidade de CD que constituem a oferta passou por um processo de encolhimento, levando o potencial comprador a ir procurar soluções para as suas necessidades nas lojas electrónicas.
Isto, só por si, não é grande problema para os consumidores de música. A principal consequência está na perda de facturação da Fnac, questão que cabe a esta multinacional resolver. Mas, sabendo-se que um dos gozos na compra de um disco está no manuseamento da oferta em exposição nas lojas, como outrora acontecia na Valentim de Carvalho, e que esse ritual não é possível de realizar quando se vai às compras na internet, só se pode lamentar que a concorrência tradicional tenha diminuido nos últimos anos. Afinal, como sucede em muitas outras áreas, são as vicissitudes de um pequeno mercado.

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17.9.04

I Grande Edição dos Prémios Motosserra

É com pompa e circunstância que tornamos público os agraciados desta primeira grande edição dos Prémios Motosserra. Tal como se havia anunciado, o alto júri do Aifai reuniu-se em conselho magno e depois de analisar cuidadosamente as sugestões enviadas pelos estimados leitores, às quais acrescentou algumas mais da sua lavra, decidiu o que havia para decidir. Sem mais demoras passamos a apresentar os laureados, organizados em dez categorias, mais uma menção horrorosa e o prémio carreira.

1. Prémio Motosserra na categoria “O pior da música portuguesa”

- “Olha o Robot” – Lena d’Água – Pobres meninos e meninas que foram expostos a esta combinação fantástica de música e texto. Oh, oh.

2. Prémio Motosserra na categoria “Velhas e más”

- “House of the Rising Sun” - The Animals – Esta música é pura e simplesmente uma animalidade.

3. Prémio Motosserra na categoria “Música contemporânea”

- “Burn” – Usher - Seleccionado de forma totalmente aleatória de entre os nomeados aos “MTV Music Video Awards 2004” na categoria “Best R&B”. Não fazemos a menor ideia do que seja mas existe uma probabilidade superior a 99,9% de que o Prémio Motosserra seja inteiramente merecido.

4. Prémio Motosserra na categoria “Música romântica”

- “All by Myself” – Celine Dion – Num episódio memorável do Big Show Sic, uma concorrente, ou convidada, ou membro do público, ou qualquer coisa parecida, confessou à audiência que se tinha apaixonado a dançar um “slôn” da Celine Dion. Lindo.

5. Prémio Motosserra na categoria “Música latina”

- “Rapunzel” – Daniela Mercury – Vrrrrrrrrrrrrrrrrr! Timber!

6. Prémio Motosserra na categoria “No melhor pano cai a nódoa”

- “Wonderful Tonight” – Eric Clapton – Em verdade, poder-se-ia escolher muitas outras do período do Eric Clapton que ficou conhecido por “agora só faço música da treta até ter dinheiro para comprar um castelo”.

7. Prémio Motosserra na categoria “Safou-se por pouco ao prémio carreira”

- “Papa Don’t Preach” – Madonna – Por estas e outras quase que merecia um prémio carreira. Safou-se com os últimos discos que, há que reconhecer, têm alguma piada.

8. Prémio Motosserra na categoria “Estes ainda hão-de ganhar o prémio carreira”

- “Stayin’ Alive” – Bee Gees – Aqueles “ha, ha, ha” em falsete são de ir às lágrimas. De raiva, evidentemente.

9. Prémio Motosserra na categoria “Ui, que esta é mesmo horrível”

- “Born to Be Alive” - Patrick Hernandez – Se por acaso não estão a identificar esta cantiga, não se esforcem em fazê-lo. Fiquem felizes por não se lembrarem do que é isto.

10. Prémio Motosserra na categoria “Grande prémio do júri”

- “Life is life” – Opus – Sim, é essa! “Na, na, na, na, na. Life is life. Na, na, na, na, na”.

Menção Horrorosa

- “Nights in White Satin” – The Moody Blues – Pelo facto de terem outras canções que compensam este ícone da pop possidónia, têm direito a esta menção, depois de o júri ter hesitado entre este tema e o “Melancoly Man”.

Prémio Carreira

- Júlio Iglesias – Quem mais havia de ser? Ainda se o Art Sullivan não se tivesse limitado a uma carreira meteórica com o seu “Petite Demoiselle” haveria concorrência à altura.

15.9.04

"Shadows and Light", Joni Mitchel

Joni Mitchel era já uma uma "cantautora" de créditos firmados pela sua originalidade quando, em 1979, fez uma digressão na companhia de alguns valores emergentes do jazz e da fusão. Dando liberdade à sua tendência para explorar caminhos fora do comum, que lhe foram valendo prestígio mas que limitaram o seu sucesso comercial, a intérprete canadiana rodeou-se de um naipe de músicos em que figuravam Pat Metheny, Lyle Mays, Jaco Pastorius, Michael Brecker e Don Alias. Desse conjunto de concertos que ficaram para a história, resultou a edição do álbum "Shadows and Light", bem como de um filme com o mesmo título que documentava uma das actuações realizadas.
É este último registo que encontrei há dias em suporte DVD e que, animado da curiosidade de quem nunca teve a oportunidade de o visionar, decidi acrescentar à minha colecção de vídeos musicais. Sobre as canções que integram esta edição as surpresas são escassas já que o repertório inclui praticamente todos os temas que já faziam parte da versão discográfica. O interesse está no facto de se poder escutar "In France They Kiss on Main Street", "Coyote", "Free Man in Paris", "Furry Sings The Blues" ou a homenagem a Charles Mingus em "Goodbye Pork Pie Hat", enquanto se observa, em plena actividade, uma talentosa intérprete e compositora acompanhada de uma super-banda.
A guitarra de Pat Metheny e o baixo eléctrico de Jaco Pastorius são, de longe, as grandes vedetas da sessão, a par da segurança revelada por Joni Mitchel. Com as suas fortes personalidades, os dois instrumentos contaminam todo o som da banda e certamente que não será por acaso que ambos os músicos até têm direito a pequenos momentos de solidão em palco, em que aproveitam para mostrar algumas das "malhas" virtuosas de que eram capazes.
Quanto ao que se pode ver, nem sempre as soluções são felizes. No tema inicial, "In France...", a utilização de material de arquivo que recupera os tempos de euforia do "rock and roll" e passagens do filme "Um Rebelde Sem Causa", com James Dean, enquadra-se bem como elemento gerador de expectativa até surgirem as primeiras imagens da banda. Mas a realização revela-se geralmente pobre, evidenciando que o documento foi recolhido através de um número modesto de câmaras que nem sempre conseguem captar aquilo que deviam. Também a ocasional mistura entre imagens de Mitchel retiradas de vídeo-clips e as que foram registadas durante o concerto são um expediente pouco eficaz e até contraproducente, já que impedem o visionamento daquilo que mais interessava, isto é, a actuação ao vivo.
Detalhes como estes mancham o DVD de "Shadows and Light" mas, apesar de também os extras se resumirem a uma colecção de fotos de Joni Mitchel e dos elementos da banda, o balanço ainda pode considerar-se positivo. Essencialmente, pela música que se pode escutar, pela arte de quem a executa e pela oportunidade de ver Jaco Pastorius em actuação, alguns anos antes de entrar no processo de decadência física e mental que o conduziria a uma morte trágica em 1987.

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14.9.04

"Other Directions", Nicola Conte

A estética da capa não engana. E as sonoridades que se encontram lá dentro também não. O novo disco do produtor italiano Nicola Conte vai ao encontro do jazz dos anos 60 e das experiências de fusão com a bossa nova, protagonizadas na época por nomes como o do saxofonista Stan Getz, tendo como resultado a recriação de um som familiar para os apreciadores desse rico período da história da música popular.
Quem conheça os álbuns anteriores de Conte não estranhará os conteúdos deste "Other Directions" que assinala a estreia do produtor e DJ oriundo de Bari na lendária etiqueta Blue Note. O Brasil é, desde sempre, a fonte primária de inspiração de Nicola Conte e as atmosferas do jazz têm tido presença assegurada na sua, ainda curta, obra discográfica. Desta vez, porém, a música dispensa o recurso à electrónica, apoiando-se numa competente banda de 15 elementos que, à excepção da guitarra eléctrica executada pelo próprio líder da gravação no tema que encerra o álbum, apenas se serve de instrumentos acústicos e de quatro vocalistas.
"Other Directions" é uma óptima surpresa e excede todas as expectativas em relação a um produtor cujos trabalhos são habitualmente arquivados sob a equívoca classificação de "música de dança". Em bom rigor, este disco devia surgir nos escaparates do jazz, porque é disso que se trata. E isto para não chamar à discussão a circunstância de este estilo musical ter sido, na sua origem, pouco mais do que destinado a "abanar o capacete" onde quer que houvesse músicos dispostos a tocar e gente com vontade de se divertir.
Entre os 13 temas que integram "Other Directions", 11 dos quais são originais da responsabilidade de Conte, pode desfrutar-se do "swing" da faixa que dá o título ao álbum, da alegria dançante de "Kind of Sunshine", do tranquilo balanço de "A Time for Spring" ou da repousante balada que dá o sinal de arranque ao disco, "Sea and Sand". Os arranjos são de evidente bom gosto e instrumentos como os trompetes e os saxofones foram confiados em mãos sábias, revelando que o jazz, em Itália, passa actualmente por uma fase de saudável dinamismo que se recomenda.

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13.9.04

"Rock of Ages", The Band

Houve um tempo em que qualquer banda que pretendesse subir um degrau na escada da respeitabilidade tinha de decidir, um dia, proceder à edição de um álbum gravado ao vivo. Se fosse duplo e incluisse versões aumentadas e recheadas de solos de alguns dos temas objecto de maior consagração, então a opção tinha já alguns dos ingredientes certos para fazer furor. Estava-se na época em que os músicos de "rock" tentavam provar que também eram bons instrumentistas e capazes de executar longos improvisos sobre um tema, como sucedia com os seus colegas do jazz. A intenção deu frutos interessantes mas produziu, igualmente, discos que merecem a classificação de "grande seca".
Se, no início dos anos 70, os The Band acharam que era altura de lançarem o seu álbum ao vivo, isso não quer dizer que se tenham preocupado em cumprir todas as tradições em vigor. É verdade que "Rock of Ages" era, na sua edição original em vinil, um duplo. Mas a grande novidade em relação aos anteriores trabalhos em estúdio estava no recurso a uma secção de metais destinada a enriquecer os arranjos das canções. De resto, as versões originais eram respeitadas e os músicos não perdiam tempo a inventar solos ou outros truques visando comprovar as suas capacidades como instrumentistas.
Em 2001, este disco histórico na discografia da antiga banda de surporte de Ronnie Hawkins e de Bob Dylan, foi reeditado, em versão remasterizada. Como os dois velhinhos 33 rotações cabiam num só CD, a nova versão foi acrescentada de um segundo disco compacto com faixas inéditas, incluindo quatro temas que têm a participação de Dylan. Tal como sucede no concerto de despedida registado anos mais tarde no filme "The Last Waltz", os The Band estavam em grande forma nessa noite de passagem de ano de 1971/1972, quando a música de "Rock of Ages" foi gravada.
Podem escutar-se grandes clássicos do grupo como "Don't Do It", "Get Up Jake", "Stage Fright", "The Night They Drove Old Dixie Down" e "The Shape I'm In", exemplos do cruzamento de referências, desde a "country" aos "blues" e ao "rock and roll", que caracterizaram o universo musical dos The Band. Entre os inéditos encontram-se "I Shall Be Released" e "Up On Cripple Creek", argumentos acrescidos para se conhecer esta nova edição. O remate do álbum é, agora, protagonizado por "Like a Rolling Stone", interpretado pelo próprio Bob Dylan. Eu prefiro a versão ao vivo dos Rolling Stones que integra o semi-acústico "Stripped". Mas não é por isso que vou deixar de escutar este "Rock of Ages", que documenta uma das grandes bandas das décadas de 60 e 70.

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Tintim no país da "new wave"

Mal apareceu no mercado como um dos fenómenos da "new wave", Joe Jackson depressa ganhou a alcunha de "Tintim do rock". Não se tratava de fazer algum julgamento sobre o eventual carácter aventuroso da sua música mas apenas de aplicar um epíteto que se inspirava na sua aparência física. Ainda assim, por coincidência ou não, a colecção de canções que integrava o seu álbum de estreia, "Look Sharp", recuperava a frescura e a descontracção juvenis dos anos 60, numa altura em que o herói criado por Hergé já era um ícone global. A esta marca juntava-se a sonoridade básica de uma banda que se resumia ao baixo, bateria e guitarra, acrescidos de ocasionais intervenções de harmónica e piano.
O disco em causa foi uma das mais apreciadas lufadas de ar fresco surgidas no final dos anos 70. Jackson apostava nele todos os seus talentos de compositor de canções curtas e eficazes, talhadas à moda dos tempos gloriosos dos 45 rotações. A pop transpirava do álbum em doses substanciais e os sucessivos temas agarravam à primeira audição quem os escutasse. No campo da execução nada se revelava particularmente arrasador. A guitarra ritmo não passava disso mesmo, evitando solos que provavelmente o seu manuseador não saberia fazer, enquanto a bateria actuava quase como um simples metrónomo, embora não tão primário quanto o que caracterizava a secção rítmica dos Ramones.
Mas havia uma excepção. O baixo, nas mãos de Graham Maby, fornecia um suporte pujante à totalidade dos temas e fazia até as vezes de solista que a guitarra se abstinha de assumir. Pode constatar-se a situação em "Sunday Papers", "Baby Stick Around" ou no incontornável "riff" de "Look Sharp". A obra posterior de Joe Jackson teve altos e baixos, com alguns episódios sinfónicos vagamente pretensiosos. Mas "Look Sharp", tal como "Big World" e a incursão no jazz clássico através de "Jumpin' Jive", são merecedores, ainda hoje, de um compensador regresso ao passado. Todos têm em comum o facto de Maby assegurar a viola baixo o que, só por si, é motivo para uma audição.

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7.9.04

Uma colectânea

Quem não tem o que fazer, faz colectâneas. Provavelmente muito pouca gente terá ouvido falar neste provérbio popular português. Mas lá que ele existe, existe. É como as bruxas em Espanha. Ninguém acredita nelas, mas lá que "las hay, las hay".
Posto isto, e como a tarde não foi tão preenchida com trabalho como era suposto, dediquei-me a fazer uma colectânea para consumo no automóvel. Optei por uma mistura entre pop e rock, já que o jazz e a clássica são estilos egoístas que não se compadecem com a partilha da atenção entre as curvas da estrada e os sons que vão saindo dos esforçados altifalantes que estão instalados no bólide.
Fui tirando, à sorte, discos de entre os montes que vão parecendo objectos de decoração pós-moderna cá por casa e cheguei ao seguinte alinhamento:

1 - "Peter Pumpkinhead" - XTC;

2 - "Wages Day" - Deacon Blue;

3 - "Cars and Girls" - Prefab Sprout;

4 - "Brand New Friend" - Lloyd Cole and The Comotions;

5 - "Wake up and Make Love with Me" - Ian Dury;

6 - "Let's Go" - The Cars";

7 - "If You Don't Love Me (I'll Kill Myself)" - Peter Droge;

8 - "All This Time" - Sting;

9 - "MMM MMM MMM MMM" - Crash Test Dummies;

10 - "Nothing Never Happens" - Del Amitri;

11 - "Glastonbury Song" - The Waterboys;

12 - "Mr. E's Beautiful Blues" - Eels;

13 - "The Magnificent Seven" - The Clash;

14 - "World Shut Your Mouth" - Julian Cope;

15 - "Beatles and The Stones" - The House of Love;

16 - "Blinded by the Light" - Manfred Mann's Earth Band;

17 - "Dweller on the Threshold" - Van Morrison;

18 - "Baba O'Rilley" - The Who.

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3.9.04

O baterista que veio do frio

Jonas Johansen é um nome que talvez não diga grande coisa a ninguém. Mas quem, por um destes dias, tropece num dos seus discos nos escaparates do jazz de alguma loja vai ficar surpreendido, caso decida descobrir o que está guardado na pequena rodela prateada que se esconde dentro da capa. Foi o que me sucedeu quando, há algum tempo, escutei o álbum "Please Move", assinado por aquele baterista dinamarquês.
O jazz nórdico tem tradição e o guitarrista John Scofield, por exemplo, já gravou recentemente na companhia de alguns dos nomes mais sonantes desse dinâmico circuito. No álbum em causa estão guardados dez temas, na sua esmagadora maioria compostos pelos elementos da banda que acompanha Johansen, a saber: Fredrik Lundin, nos saxofones tenor e soprano, Ben Besiakov, no piano, Lars Danielsson, no contrabaixo e, ainda, Jacob Anderson, responsável pela percussão em duas das faixas, além de Soren Lee, que toca guitarra em três delas.
"Please Move" é um daqueles discos que não têm a pretensão de fazer história mas que se ouvem com enorme gosto. O som da gravação é cristalino e serve na perfeição o "post-bop" sereno e competente que se ouve da primeira à última nota. Como destaques deste disco, eu escolheria "Bush Beat", "Good Day New Life", "Sorry I'm Happy", "Dancing Time" e, também, "Silent Beauty" que inclui um excelente solo do contrabaixo. Registe-se, aliás, que Johansen e Danielsson constituem uma sólida aliança ao longo deste álbum.

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As nonas

Há uns dias atrás, um familiar entendido na matéria deu-me para a mão a nona sinfonia de Dvořác acompanhada do comentário “Ouve isto!”. O CD ficou ali na prateleira alguns dias na fila dos discos a escutar, onde figuram, entre outros, as recomendações do Aifai - do Billy e dos prezados leitores.
Ontem finalmente dediquei-lhe a atenção merecida. Trata-se de uma edição “Legendary Recordings” da Deutsche Grammophon, com a Berliner Philharmoniker dirigida por Ferenc Fricsay. Esta colecção da editora alemã, vendida a preço reduzido, edita versões remasterizadas de grandes êxitos originalmente publicados em vinil. No caso trata-se de uma edição de 1960, gravada em 1959, pelo que o som tem a qualidade possível para uma gravação com mais de quarenta anos.
A obra, que eu julgava ser-me totalmente desconhecida, é muito agradável. É daquelas peças poderosas que, mesmo para o leigo – como é o caso –, se ouvem duma enfiada e quando acabam se ouvem de novo, desta vez com o volume um pouco mais alto. Qual foi a minha surpresa quando chegado ao quarto andamento, o que encerra a sinfonia, me apercebo que afinal estou perante um dos mega-hits da música erudita. O tema principal do quarto andamento é daqueles globalmente conhecidos que já deve ter servido de banda sonora a dezenas de filmes, anúncios e até aquelas peças de cenas radicais de desporto que a RTP emitia antigamente quando havia falhas na continuidade.
Mais um CD para lista dos “a comprar”. Falta, contudo, investigar pois pode ser que encontre outra edição, tão dinâmica como esta mas com um som um bocadinho melhor (aceitam-se sugestões).
Entre ontem e hoje já deve ter diminuído um pouco mais a simpatia dos vizinhos por mim, mas esta é daquelas músicas que não dá para ouvir com o volume reduzido. Tal como a nona sinfonia de Beethoven. Será que há alguma influência mística do número 9 sobre a composição? Pelo sim, pelo não vou ficar atento.

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2.9.04

A dúvida de Coltrane

Há temas que valem por um álbum inteiro. É o caso de "Traneing In", que abre o disco com o mesmo título e que testemunha uma sessão liderada por John Coltrane em 1957. Acompanhado pelo trio de Red Garland, na altura completado com o contrabaixista Paul Chambers e o baterista Arthur Taylor, o lendário saxofonista partilha os louros da actuação com o pianista num registo que transpira bop por todos os poros.
As cerimónias de boas-vindas são garantidas pelo piano de Garland e só após terem decorrido aproximadamente três minutos de um improviso que dura mais de 12, John Coltrane ataca o tema com um solo de retirar o fôlego a qualquer um, excepto, naturalmente, ao próprio. Coltrane estava, nesta altura, temporariamente afastado do quarteto de Miles Davis com quem manteve uma relação algo tempestuosa.
Mas o saxofonista, que ainda viria a gravar discos históricos com Davis, nomeadamente "Kind of Blue", era já um gigante. As notas iam saindo do seu saxofone em catadupa, em sucessivas sequências arrebatadoras. Conta-se que, um dia, no ínício da colaboração entre Miles e Coltrane, este terá confessado ao trompestita que sabia como começar um solo mas tinha grande dificuldade em encontrar a forma correcta de o terminar. Miles, com a sua calma sarcástica, aconselhou-o, simplesmente, a experimentar afastar o saxofone da boca. Parece que Coltrane nunca mais se preocupou com o assunto.
Ainda bem que assim foi, porque ficaram para a posteridade momentos de génio que resultaram da elevada concentração e inesgotável capacidade de improviso do saxofonista. Como sucede em "Traneing In".

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1.9.04

Ted Nash no Audioshow

Algures no decorrer do ano passado fui com o meu querido amigo Billy Shears visitar o Audioshow, a exposição anual (creio) de sistemas de som que costuma ter lugar em Lisboa. Embora o nome do evento fosse um pouco enganoso já que, mais que áudio, havia toda uma parafernália de projectores, écrans de plasma e outros artefactos para “cinema em casa”, demos por nós algumas vezes boquiabertos com sistemas de som ao preço de um duplex em Cascais com vista para o mar e garagem em box para 3 carros.
Ao entrar num destes stands, onde o leitor de discos compactos se chama “fonte” e em que os cabos que ligam o amplificador aos altifalantes têm um diâmetro superior ao tubo do aspirador cá de casa, fiquei siderado com o que ouvi. Sem qualquer acompanhamento, um trombone lançava notas avulso num solo furioso que parecia não respeitar qualquer tipo ordem. Pouco mais de um minuto depois, e após uma ligeira pausa, aparece em cena um clarinete baixo. O trombone acalma-se e apresenta então uma suave melodia. Mais tarde, junta-se um violino ao duo e o mesmo tema mantém-se até final da música. Escusado será dizer que naquela aparelhagem só faltava mesmo ver os músicos já que o som era tão límpido e tridimensional que quase se lhe podia tocar.
Fazendo uso dos seus enciclopédicos conhecimentos musicais o meu amigo melómano elucidou-me: “É o Ted Nash, no ‘Sidewalk Meeting’”. Logo em seguida suspirou: “Vai passar muito tempo até eu voltar a ouvir este disco lá em casa...”. O desabafo justificava-se, claro está, por julgar que depois de ter escutado o CD naquele sistema de som, em casa ia parecer-lhe um canário constipado. Um perfeito exagero tendo em conta que a sua aparelhagem não dava para o duplex em Cascais mas deixa-o muito bem servido. Tentando não pensar nas limitações audiófilas do meu modesto equipamento de som, não descansei enquanto não comprei o disco.
Tal como diz o autor, o álbum é uma combinação de ritmos de New Orleans com conceitos harmónicos e melódicos da música Klezmer e passagens claras pelo Tango. Em suma, música para qualquer tipo de audiência e, sem dúvidas, uma das minhas melhores compras do ano passado.

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